Gambiarra e caos
Os tijolos expostos do ódio aos pobres
Que a turma odeia pobre, ninguém tem dúvida. Pra não ficar feio e não acabar como Odete Roithman, chamam os pobres de outros nomes, como comunismo. Mas a aporofobia é tanta que às vezes é difícil manter a máscara. O deputado Nicolas Ferreira, que já disse que a sorte do Brasil é que aqui as pessoas são burras demais para entender Marx, resolveu expor uma rua na periferia de Diadema em seu perfil no X e escreveu assim “Você dá casa pronta, pintada, alinhada. Em poucos anos vira tijolo cru, gambiarras e caos. Não é economia: é caráter, cultura e espírito.”
No post, duas imagens: uma mostrando as casas em 2019, com acabamento e coloridas, e a outra em 2025, mostrando que as moradias foram estendidas até o limite da calçada e estão sem acabamento.
O que o deputado diz então é que a pobreza das pessoas que moram nestas casas está na verdade entranhado em sua própria natureza (caráter, cultura e espírito), daí então essa coisa feia que é um sobrado invadindo a calçada, dentro desta lógica. Logo, e a jogada está aqui, não adiantam projetos sociais e oportunidades, o pobre é “espiritualmente pobre” e destinado a sujar, enfeitar e destruir “a beleza e a ordem” com gambiarra e caos.
Decerto quem odeia esse monte de tijolo exposto e fios nada tem a dizer sobre prédios gigantes, horríveis e de mau gosto que podem ano após ano invadir as praias de cidades como Balneário Camboriú, Recife, Salvador e Santos, simplesmente roubando da praia seu sentido mais humano, o de se tomar sol. Não, o rico não se conforma que o mar não é a sua piscina. Ele precisa avançar, ele pode avançar e as condições para que ele sempre avance onde quiser serão garantidas por deputados como Nicolas Ferreira.
Os amantes da beleza e da ordem, que gostam de casinhas coloridas e alinhadas, não dão um pio quando essas mesmas casinhas coloridas e alinhadas são destruídas no centro porque um empreendimento imobiliário, vulgo prédio de AirBnB, vai tomar o espaço e também o sol e também a calçada e a memória desses lugares.
Quando o pai do Neymar resolve montar o centro de treinamento que ameaça 90 mil metros quadrados de mata atlântica, você não vê nenhum comentário sobre como, além de crime, isso é cafona. Ou o Gustavo Lima, com sua mansão réplica de templo grego. Ou a Igreja Universal com sua réplica do Templo de Salomão, construído no meio de um bairro comercial e que custou cerca 680 milhões de reais.
Pelo estado que a família Bolsonaro, apoiada pelo Nicolas, deixou o palácio da alvorada, eu tenho pena da cadeia onde o condenado vai ficar. Tapetes malconservados, cagados, tudo quebrado, a residência oficial de um presidente, pelo amor. Você entrega tudo bonito pra essa turma e em quatro anos vira essa porcaria - coisa de caráter, cultura e espírito.
Mas, uma vez que tanta gente fez coro e provavelmente nunca pisaram numa periferia e google maps não mostra o lado de dentro das moradias, vou contar por que fachada de casa de pobre nem sempre tem acabamento. É uma questão de prioridade, definição basilar de inteligência. O orçamento é limitado e você mora do lado de dentro da casa e não na fachada, logo sua prioridade vai ser cuidar, obviamente, da parte de dentro. Muitas destas casas expostas dão uma surra nesta porcaria de micro-apartamentos de AirBnB no centro em que cada descarga gera um concerto de música concreta não solicitado em todo o prédio. Espirrou no décimo andar, quem tá no primeiro diz “saúde”. Fora o tanto de merda na fiação, hidráulica tanto problema o tempo todo, e a vida acontece entre uma infiltração no teto e o risco de incêndio permanente.
Sobre espaço, o eterno dilema da cidade, nem todo mundo tá comprando esse contrato urbano de morar em caixa de sapato com sinal de wi-fi. A casa ajeitada de um provavelmente vai abrigar outros membros da família que ainda não têm moradia, porque aluguel é forca que mata devagar. É bem diferente de fazer praia de penico, sabe?
Mas sim, de fato existe uma cultura por trás destas casas. A cultura do abrigo, da sobrevivência e da engenhosidade. Doido é que a gente aceitou que devemos viver em casas que não atendem às nossas necessidades e sim à necessidade do mercado de gerar lucro pra bilionário. Que tudo bem morar no centro de São Paulo com a vista privilegiada pra área de serviço do vizinho, que agora lavanderia virou o novo oxxo já que não cabe nem máquina de lavar nestas casas.
Por isso cada um tenta dar um jeito, pelo menos aqueles que precisam dar um jeito nas coisas. Rico não precisa, alguém dá sempre um jeito por eles.
E nisso de dar um jeito, a maioria das vezes a gambiarra não gera o caos, ela resolve o caos. Ela transforma o caos em alguma dignidade. E dignidade é algo que não cabe na fachada.



Eu que agradeço pelo texto, Terto, o mais acertado que li a respeito desse caso de aporofobia - e o contraponto das caixas de sapato cheias de problemas e riscos que o mercado imobiliário vende pra classe média e os jeitinhos que os ricos dão de passar por cima de leis, de roubar espaço público pra erguer imóveis cafonas. Compartilhando!
Exato!